quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Deus remunerador

Por Pe. Júlio Maria, na obra Comentário Apologético do Evangelho Dominical

Esta palavra significa que Deus recompensa ou castiga o homem - a sua criatura racional, conforme obedece ou desobedece às leis que lhe são traçadas pelo Criador.
Estudemos este assunto importante, examinando com amor estes dois pontos importantes que dizem respeito à remuneração:

1º Em que consiste a remuneração divina.
2º As provas desta remuneração.

O  homem sendo atraído ao bem pela esperança de uma recompensa, e afastado do mal, pelo temor, estas considerações nos estimularão no cumprimento do nosso dever.

A remuneração ou sanção

Existe uma lei divina: é certo.
Ora, toda lei deve ter uma sanção.
Logo, Deus não pode tratar do mesmo modo os que cumprem esta lei e aqueles que a desprezam, e deve necessariamente, em virtude da sua justiça recompensar os bons e castigar os maus.
Esta sanção é imperfeita e perfeita.
Ela imperfeita neste mundo para os indivíduos, porém ela é perfeita para as nações. A razão é que os homens têm um destino eterno, e podem receber na outra vida uma sanção perfeita: o céu para os bons, o inferno para os maus. As nações tendo apenas uma existência terrestre, recebem aqui na terra, a recompensa ou o castigo de seus atos.
Na terra Deus aplica a sanção imperfeita;
Pela voz da consciência, que aprova ou condena, que é alegre ou cheia de remorsos, conforme os nossos atos.
Fazendo um ato bom, sentimos uma aprovação interior deste ato, uma consolação que sustenta e anima; ao passo que, fazendo mal, sentimos uma espécie de mordedura no coração, um desgosto íntimo: é o remorso. Nem os aplausos do público, nem a fortuna, nem as honras são capazes de impor silêncio a este testemunho inexorável.
O homem mau, embora rico e honrado pelo mundo, ouve no meio dos prazeres, sorrisos e adulações, uma voz estridente que lhe brada: - Tu és um miserável! Tu não mereces estas honras!

As provas desta remuneração

A remuneração ou sanção imperfeita é visível, palpável. Basta observar os fatos; porém lá não se limita a sanção divina: há uma outra perfeita na outra vida.
De fato a sanção temporal falta muitas vezes, e deve, faltar, porque, se os justos fossem sempre recompensados neste mundo, e os maus sempre castigados, os homens serviriam a Deus por interesse temporal, por medo, por egoísmo, e não por amor, e deste modo, a ordem moral fundada sobre a obediência livre, seria complemente destruída
É preciso pois que haja uma sanção perfeita na outra vida, que consiste numa recompensa eterna ou num castigo sem fim.
               
Tal sanção eterna nos é revelada pela fé, e não pela simples razão. Podemos entretanto, mostrá-la por motivo da razão:
a) Corresponde às aspirações de nossa natureza;
b) É admitida por todos os povos.

A nossa natureza aspira de toda a sua força a uma felicidade integral, sem fim.
Ora, não encontramos aqui na terra uma tal felicidade.
Logo, deve existir na outra vida.

É duro, sem dúvida, o pensamento de um castigo eterno, para as faltas cometidas neste mundo, e não expiadas, porém basta lembrar-nos:
a) de que o homem morto num estado de rebelião voluntária contra Deus, fica fixado definitivamente neste estado, de modo que não pode mais ser objeto de qualquer recompensa.
b) de que se o castigo do crime não fosse eterno, a sanção imposta por Deus seria impotente para evitar o mal, e a sua justiça poderia ser insultada impunemente pelo pecador, que poderia dizer-lhe: Tu serás obrigado a perdoar-me um dia, ou a aniquilar-me, e num ou noutro caso, escaparei aos teus rigores.

Conclusão

Os homens admitem facilmente a eternidade de felicidade, mas repugna-lhes a eternidade de suplícios.
A segunda entretanto, é a consequência necessária da primeira. Se Deus é justo e bom, Ele deve recompensar a virtude..., e quem recompensa a virtude deve necessariamente castigar o mal, pois é a destruição da virtude.
Para todo pecado há misericórdia, neste mundo; não porém no outro. A razão é simples.
Neste mundo o homem pode converter-se porque passado o instante do pecado, resta-lhe outro instante em que pode arrepender-se.
A eternidade é um ponto imutável. Não é uma sucessão sem fim de séculos, anos e minutos, mas sim um presente eterno, não há mais mudança possível: qual se entra, tal se fica.
O justo entra e fica justo: recebe a recompensa. O mau entra e fica mau: logo o castigo abate-se sobre ele, enquanto for mau: e não podendo mais mudar, fica mau eternamente e merece como tal um castigo eterno.

Fonte: Periódico Tradição Católica, nº 002

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