domingo, 19 de abril de 2015

O Preceito da Perfeição

por Gustavo Corção

Não há ideia mais cristã do que a de progresso, nem há menos cristã do que a de fixismo e estagnação. A vida cristã, efetivamente consiste na obediência do preceito máximo que nos deixou o Senhor: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento, e ao próximo como a ti mesmo”.
E, com a mesma inspiração, diz assim o Apóstolo: “Como escolhidos de Deus, santos e bem amados, revesti-vos de entranhas de misericórdia, de bondade, de humildade, de doçura, de paciência...
Mas acima de tudo revesti-vos de caridade, que é o vínculo da perfeição”. (Col. 3, 14). Esta proposição: “A caridade é o vínculo da perfeição” nos indica o que, por muitas outras vias, a palavra de Deus nos confirma a saber: o preceito da caridade não tem limite, e a vida da caridade é essencialmente dinâmica em busca sempre da caridade maior. Todo o amor tem esse dinamismo que o leva sempre a querer mais amor.
Na vida sobrenatural da caridade divina o impulso do amor está expresso em outro preceito de Deus que nos parece excessivo e hiperbólico: “Sede perfeito como vosso Pai celestial é perfeito” (Mt. 5, 48). Que quererá dizer este mandamento? A primeira ideia que se depreende é a de conexão entre noções que
não pareciam vinculadas: a de amor, a de perfeição e a de obediência ao preceito. A vida de caridade só responde bem ao mandamento de Deus se é desejo de perfeição, e se é progressivo, isto é, desejo cada vez maior. Nos caminhos de Deus quem não progride, regride, disseram todos os Santos Padres, e repetiram todos os doutores e santos. Pode-se até dizer que toda a vida mística, que não é privilégio de alguns nem consiste no cumprimento mais rigoroso dos conselhos evangélicos, e sim na apaixonada observância do preceito, poderia condensar-se nesta fórmula que pôs em marcha todas as almas sequiosas de vida eterna: quem não progride, regride.
Como se explica a universalidade do preceito da perfeição, e como se conciliar tão formidável enunciado com as nossas fraquezas e com a misericórdia de Deus? O impossível Deus não exigirá de nós e para o difícil ele tomou a iniciativa primeira de montar, no Monte Calvário, uma usina de energias espirituais que nos
capacitam para a vida de caridade, começo de vida eterna. Ouçamos o que nos diz Santo Tomás a este respeito.
Santo Tomás — “Pode alguém ser perfeito nesta vida? A perfeição da vida cristã consiste, com efeito, na caridade, e implica uma certa universalidade ou totalidade, já que perfeito se diz daquilo a que nada falta. Deste ponto de vista pode se considerar uma tripla perfeição: a perfeição absoluta consiste em amar a Deus
tanto quanto ele é digno de ser amado; essa perfeição não é possível à criatura, pois só Deus pode se amar assim, isto é, infinitamente. A segunda perfeição é a que consiste em amar a Deus de todo o nosso poder, de tal modo que nosso amor tenda sempre atualmente para ele. Esta perfeição só é possível no céu”.
Há enfim uma terceira perfeição que consiste em amar a Deus, não de modo infinito e tanto quanto ele merece, nem também sempre tendendo para ele atualmente, mas em excluir tudo o que se opõe ao amor de Deus. “O veneno que mata a caridade, diz Santo Agostinho, é a cupidez; quando ela é destruída tem-se a
perfeição”. Na terra esta perfeição pode existir, e de duas maneiras: “Ou exclui o homem de seus afetos tudo o que é contrário à caridade e a destruiria, como o pecado mortal, e isto é necessário para a salvação;
“Ou então exclui de seus afetos, não somente o que é contrário à caridade, mas tudo o que impede o seu amor de se dirigir totalmente para Deus. Sem esta perfeição, a caridade pode entretanto existir nos principiantes e nos que começam a progredir” (S. T. IIa, IIae, qu. 184, a. 2).
Todos os cristãos, diz Garrigou-Lagrange, cada um segundo sua condição, devem tender à perfeição da caridade. Deus não preceitua um atingimento, mas uma tendência, um esforço de busca, um desejo de perfeição, ou ao menos, como dizia São Francisco de Sales, um desejo de um desejo de perfeição. Sem esse fundamental dinamismo não há vida cristã.
Fonte: www.permanencia.org.br

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